Sobre geladeiras explosivas e retrocessos tecnológicos “ambientalmente corretos”.

Por: Geraldo Lino – Link original, clique aqui.

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Aumentam as suspeitas de que o violento incêndio que destruiu o conjunto Grenfell Tower, em Londres, deixando dúzias de mortos e desaparecidos, teria sido iniciado pela explosão de uma geladeira. Evidentemente, outros fatores que estão sendo investigados proporcionaram o rápido e mortal alastramento das chamas, impedindo que muitos moradores pudessem deixar o prédio em tempo. Mas a possível causa inicial aponta para um tragicamente irônico retrocesso tecnológico que voltou a permitir explosões nesses eletrodomésticos de enorme utilidade, como ocorria com os seus primitivos antecessores, nas primeiras décadas do século passado. E a conta pode ser cobrada dos mentores do ambientalismo como instrumento político, responsáveis pela demonização e o banimento dos clorofluorcarbonos (CFCs), os eficientes e versáteis gases que proporcionaram a popularização da refrigeração doméstica, a partir da década de 1930.

Com o banimento dos CFCs, nos termos do aclamado Protocolo de Montreal de 1989, uma nova família de gases refrigerantes foi desenvolvida pelos antigos fabricantes daqueles, para substituí-los, os hidrofluorcarbonos (HFCs). O pretexto para a radical medida seria o suposto efeito destrutivo dos CFCs sobre a camada de ozônio estratosférico (embora ninguém jamais tenha demonstrado como moléculas quatro vezes mais densas que o ar poderiam ascender a dezenas de quilômetros de altitude, em especial, quando a quase totalidade dos seus vazamentos ocorria em ambientes fechados). Ocorre que, duas décadas depois, os HFCs passaram a ser apontados como “gases de efeito estufa” supereficientes, dez mil vezes mais que o vilipendiado dióxido de carbono (CO2), motivando uma atualização do Protocolo de Montreal com o objetivo de congelar o seu uso, já na próxima década, e bani-los totalmente, até 2046. Em lugar de ameaçar o ozônio estratosférico, segundo os alarmistas, os HFCs contribuiriam para o temido aquecimento global.

Antecipando-se às novas restrições, alguns fabricantes de refrigeradores domésticos e industriais voltaram a algumas antigas soluções tecnológicas, passando a usar como refrigerantes gases como o propano e o isobutano, além de compostos de amônia. O único problema é que, ao contrário dos CFCs e dos HFCs, esses gases são – inflamáveis.

No Reino Unido e em outros países, já ocorreram numerosos acidentes causados por explosões decorrentes de vazamentos em geladeiras e refrigeradores industriais, causando, além de prejuízos materiais, ferimentos e até mesmo casos fatais. Ou seja, elevando a níveis de risco de vida incidentes que, há mais de oito décadas, não passavam de meros inconvenientes para os usuários, necessitando apenas do reparo dos equipamentos e a substituição dos gases vazados.

Em junho de 2014, em Rochester, Austrália, um vazamento de amônia provocou a explosão de um sistema de refrigeração que estava sendo reparado por dois técnicos, causando a morte de um deles e queimaduras graves no outro. Em novembro de 2015, em Cwmbran, País de Gales, um incêndio causado pela explosão de uma geladeira matou Samantha Thomas, de 29 anos. Em abril de 2016, um colégio de Londonderry, Irlanda do Norte, teve que ser parcialmente evacuado após a explosão de uma geladeira na cantina, causando ferimentos em uma funcionária.

Independentemente dos demais fatores que a causaram, a tragédia da Grenfell Tower pode ser mais um exemplo das consequências desse inconcebível retrocesso tecnológico.

Retorno no tempo

A indisponibilidade de gases refrigerantes que não fossem tóxicos ou inflamáveis foi um dos fatores que dificultaram grandemente a expansão da refrigeração doméstica, nas primeiras décadas do século XX. Os principais gases empregados, naquele período, eram o dióxido de enxofre, cloreto de metila e amônia anidra. Todos tinham problemas, como a corrosividade sobre as partes metálicas ou a toxicidade. Em 1929, mais de 100 pessoas morreram em um hospital de Cleveland, EUA, devido a um vazamento no sistema de refrigeração. As vítimas domésticas também chegaram à casa das centenas, no país, levando o New York Times e outros jornais a promover campanhas contra os perigos da refrigeração.

Na época, uma equipe de cientistas e técnicos da Frigidaire, subsidiária da General Motors, encabeçada pelo engenheiro e químico Thomas Midgley Jr., já trabalhava na busca de uma molécula alternativa às disponíveis. Em 1930, depois de mais de dois anos de pesquisas e testes, Midgley apresentou ao mundo os CFCs, que impressionaram pelas suas qualidades, não sendo tóxicos, inflamáveis ou reativos com outras substâncias, além de serem de fácil sintetização. De fato, em uma conferência realizada na Sociedade Química Americana, Midgley demonstrou dramaticamente as qualidades dos novos gases, ao inalar e apagar uma vela com um sopro de CFCs.

Com os CFCs, a refrigeração iniciou a sua escalada de sucesso. Em 1959, 96% dos lares estadunidenses já dispunham de eficientes geladeiras. Embora nos demais países e expansão tenha sido mais lenta, a redução dos custos e dos riscos de utilização abriu caminho para a popularização da refrigeração, tanto doméstica como industrial, com um enorme impacto positivo sobre a conservação dos alimentos, principalmente, nos países de clima mais quente. Por isso, poucas substâncias produzidas pelo homem podem igualar-se aos CFCs em termos de utilidade e benefícios para toda a humanidade.

Isso, até entrarem em cena os ambientalistas, que, a partir da década de 1980, com o surgimento das primeiras hipóteses alarmistas sobre o suposto impacto dos CFCs sobre o ozônio estratosférico, vislumbraram uma grande oportunidade para a implementação de uma legislação internacional vinculante sobre eles, que poderia catalisar a ambição maior de regulamentar as emissões de dióxido de carbono. Sintomaticamente, a campanha contra os CFCs envolveu alguns “cientistas-ativistas” que, na década anterior, haviam se engajado ativamente na virulenta campanha que resultou no banimento de um dos pesticidas mais eficientes já inventados, o DDT, pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos EUA. Um deles foi o biólogo George Woodwell, fundador de ONGs como o Environmental Defense Fund (EDF) e o Woods Hole Research Center (cuja filial brasileira, Instituto de Pesquisas da Amazônia-IPAM, é uma das integrantes do aparato ambientalista que opera no País).

Em 1985, com o patrocínio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a Fundação Rockefeller e ONGs ambientalistas como o Environmental Defense Fund (EDF) e outras, realizou-se a Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozônio. No mesmo ano, também na Áustria, em Villach, ocorreu a Conferência Internacional sobre a Avaliação do Papel do Dióxido de Carbono e Outros Gases de Efeito Estufa nas Variações Climáticas e Impactos Associados, da qual resultou a criação do Grupo Assessor sobre Gases de Efeito Estufa (AGGG, em inglês), antecessor do notório Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que viria a consolidar-se como o órgão internacional de referência sobre as políticas climáticas baseadas na inexistente influência humana na dinâmica climática global.

No ano seguinte, a campanha se reforçou com o anúncio sobre a existência de um “buraco” na camada de ozônio na Antártica. Embora as rarefações cíclicas nas concentrações de ozônio na estratosfera fossem conhecidas desde a década de 1920, antes da invenção dos CFCs, o fenômeno ganhou manchetes de primeira página em todo o mundo e foi imediatamente apontado como a prova de que o homem estaria afetando o ozônio estratosférico. O alarmismo prevalecente aplainou o caminho para a aprovação do Protocolo de Montreal, em 1987, no qual foi estabelecido um calendário para o banimento daqueles produtos. As repercussões da campanha anti-CFCs se somaram às da investida anti-CO2 para elevar o alarmismo climático a níveis inusitados.

O aparato ambientalista, que vinha ganhando musculatura desde a década anterior, não perdeu tempo em aproveitar tais oportunidades. A partir de 1986, dezenas de milhões de dólares provenientes das grandes fundações do Establishment anglo-americano jorraram nas contas bancárias das principais ONGs, para a promoção de histórias assustadoras sobre a degradação da camada de ozônio e o aquecimento global. O World Resources Institute (WRI), por exemplo, recebeu 25 milhões de dólares da Fundação MacArthur para “informar” o público sobre os perigos da degradação do ozônio e o aquecimento global. Posteriormente, o WRI começou a propor um imposto sobre os combustíveis fósseis para reduzir as emissões de CO2.

Como se percebe, tais campanhas alarmistas vêm de longe.

Sem evidências de problemas na atmosfera – mas com grande potencial político

A aprovação do Protocolo de Montreal estabeleceu um precedente fundamental para a politização do alarmismo climático. Embora seja comumente apregoado como “o mais bem-sucedido tratado internacional de todos os tempos”, a adesão ao Protocolo, principalmente por parte dos países em desenvolvimento, resultou em grande medida de pressões políticas. O Artigo 4 do tratado, intitulado “Controle do comércio com as não-partes”, previa pesadas sanções aos países que recusassem a adesão, inclusive embargos comerciais e a proibição de exportações dessas “substâncias controladas” aos não-signatários. O Brasil, entre outros países em desenvolvimento, sofreu fortes pressões para aderir ao acordo, sob ameaças de problemas com as renegociações das suas dívidas externas.

O alcance do tratado pode ser avaliado pelas cândidas declarações do seu principal negociador estadunidense, o diplomata Richard Benedick, no livro que publicou em 1991, Ozone Diplomacy (Diplomacia do ozônio):

“O Protocolo de Montreal (…) determinou significativas reduções no uso de vários produtos químicos extremamente úteis. (…) Pela sua ação, os países signatários assinaram a sentença de morte para uma importante parte da indústria química internacional, com implicações de bilhões de dólares em investimentos e centenas de milhares de empregos em setores correlatos. O protocolo, simplesmente, não prescreveu limites para esses produtos com base na “melhor tecnologia disponível”, que teria sido a maneira tradicional de reconciliar objetivos ambientais com os interesses econômicos. Em vez disto, os negociadores estabeleceram datas-limite para a substituição de produtos que haviam se tornado sinônimos de padrões de vida modernos, ainda que as tecnologias requisitadas ainda não existissem. (…) Na época das negociações e da assinatura, não existia nenhuma evidência de problemas mensuráveis. Assim, ao contrário de acordos ambientais do passado, o tratado não foi uma resposta a acontecimentos ou eventos prejudiciais, mas uma ação preventiva em escala global [grifos nossos].”

Aí está a admissão, às claras, de que inexistiam quaisquer evidências científicas que justificassem medidas tão drásticas. Para completar, Benedick também não faz segredo sobre a relevância do Protocolo para as futuras negociações sobre o aquecimento global:

“Os mecanismos que nós concebemos para o Protocolo servirão, muito provavelmente, de modelo para as instituições criadas para controlar o efeito estufa e a adaptação às mudanças climáticas.”

É significativo que, antes de ser destacado para as negociações do Protocolo de Montreal, Benedick chefiava o Gabinete de População do Departamento de Estado, onde defendia a aplicação de draconianas políticas de controle demográfico nos países subdesenvolvidos.

Em uma repetição do que havia ocorrido antes com o DDT, os principais fabricantes de CFCs, na América do Norte, Europa e Japão (cujas patentes estavam no fim), embora tenham inicialmente oferecido resistência à campanha ambientalista, acabaram não sendo muito afetados pelas restrições aos seus produtos, pois, prontamente, apresentaram os HFCs como uma nova família de substitutos. O problema, pelo menos para os usuários, é que tais produtos não só custavam 20-30 vezes mais que os CFCs, como também obrigaram a uma total substituição dos equipamentos existentes, pois eram incompatíveis com os compressores dos refrigeradores em uso.

Por outro lado, o banimento dos CFCs nos países industrializados motivou o surgimento de um ativo comércio ilegal oriundo dos fabricantes sediados nos países em desenvolvimento, que receberam um prazo maior para a adaptação das suas indústrias (além de recursos de um fundo de compensação estabelecido pelo protocolo). Nos EUA, onde a produção e comercialização dos CFCs foram encerradas em 1996, a estrutura policial criada para reprimir esse contrabando se tornou inferior apenas à estabelecida para o combate ao narcotráfico, o que denota as consequências do irracionalismo ambientalista, que conseguiu a façanha de transformar uma das substâncias mais úteis e versáteis já inventadas em objeto de repressão policial.

Agora, vejamos o que ocorrerá com os HFCs – que, pelo menos, não provocam explosões nos equipamentos que os utilizam.

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